Da medicina ao design, uma trajetória guiada pelo olhar autêntico sobre brasilidade. Confira a entrevista!
Quase quatro décadas depois de fundar a Osklen, Oskar Metsavaht segue investigando as mesmas perguntas que atravessam sua trajetória: de onde nasce a criação, o que define uma identidade brasileira e como transformar referências do cotidiano em uma linguagem capaz de dialogar com o mundo. Em uma talk intimista no Teatro Brasília Shopping, que reuniu convidados, colaboradores e clientes, o criador da Osklen revisitou memórias e arquivos de sua trajetória, iniciada na medicina e transformada pelo desejo de criar.
Para Oskar, falar sobre a Osklen é, por consequência, falar sobre o Rio de Janeiro. A cidade, especialmente Ipanema, permanece como um laboratório criativo onde natureza e urbanidade, simplicidade e sofisticação convivem em permanente movimento. É desse território que parte a Spring Summer Rio 26/27, coleção que revisita códigos fundamentais da marca para traduzir o verão carioca por meio de contrastes — assinatura da marca que se mantém viva e cada vez mais atual.
A conversa também atravessou um dos conceitos que ajudaram a posicionar a Osklen internacionalmente: o Novo Luxo. Para Oskar, a ideia de luxo contemporâneo passa pela costura entre desejo, design, inovação, qualidade e responsabilidade socioambiental. Uma visão que se desdobra no conceito ASAP, As Sustainable As Possible, As Soon As Possible, criado pelo designer como um compromisso permanente de evolução. Na sua leitura, o luxo à brasileira encontra justamente nesse equilíbrio entre estética e ética, permanência e transformação, uma identidade própria.
Confira, a seguir, o bate-papo com o criador da Osklen:
O Rio de Janeiro é apresentado como território criativo permanente da Osklen. Depois de tantos anos traduzindo a cidade em moda, o que ainda há no Rio hoje que continua provocando o seu olhar e alimentando sua criação?
O Rio continua me provocando porque é uma cidade de contrastes e de uma beleza que nunca é estática. É natureza e metrópole ao mesmo tempo. O asfalto encontra a areia, a montanha encontra o mar, o concreto convive com a floresta. E há uma sensualidade, uma espontaneidade, uma maneira muito própria de viver e ocupar esses espaços
E, nestes três últimos anos, a cidade, já bastante diversa em classes sociais, culturais, étnicas e econômicas, agora tem uma diversidade de outras nacionalidades e culturas de vários países do mundo inteiro nas praias, nos bares, nas ruas, nos shows. Ipanema especialmente representa, conceitualmente, o Rio de Janeiro e então um tanto deste Brasil: é praia, mas tem asfalto; é cidade, mas tem palmeiras; é provinciana, mas super cosmopolita; é balneário, mas tem uma arquitetura modernista
Depois de tantos anos, o Rio ainda me surpreende porque muda o tempo todo, mas mantém uma essência muito própria. É essa tensão entre permanência e transformação que continua alimentando meu trabalho
A Spring Summer Rio 26/27 revisita códigos muito reconhecíveis da Osklen, como o contraste entre o urbano e o natural, o high-low e a relação com a paisagem carioca. O que você quis revelar sobre o Rio nesta coleção que ainda não havia sido dito pela marca?
Mais do que revelar um novo Rio, quis depurar o nosso olhar sobre ele. Voltar à essência.
A coleção parte de Ipanema quase como uma síntese gráfica e sensorial: o preto do asfalto, o branco da areia, a luz dourada do fim de tarde, o azul do mar e do céu. É um exercício de equilíbrio entre forças aparentemente opostas: urbano e natureza, sofisticação e simplicidade, masculino e feminino, matéria e leveza
Talvez o novo esteja justamente nessa síntese. Depois de tantas coleções inspiradas pelo Rio, hoje me interessa menos representá-lo literalmente e mais traduzir sua essência. Um Rio minimalista, sofisticado, sensual e contemporâneo. É o que chamo de Brazilian Soul: não uma imagem folclórica do Brasil, mas uma linguagem brasileira capaz de ser universal
Você foi um dos pioneiros na construção do conceito de Novo Luxo, muito antes de sustentabilidade e responsabilidade socioambiental se tornarem pautas centrais na moda. Hoje, o que significa criar uma marca verdadeiramente contemporânea em um mercado que precisa conciliar desejo, inovação e responsabilidade?
Quando comecei a falar em Novo Luxo, há mais de duas décadas, minha visão era de que luxo contemporâneo não poderia ser definido apenas por preço, raridade ou tradição. Ele deveria incorporar conhecimento, inovação, cultura, qualidade, design e responsabilidade socioambiental
Hoje isso me parece ainda mais relevante. Não acredito em sustentabilidade sem desejo. Um produto precisa primeiro emocionar, ter design, qualidade, inovação e criar identificação. Mas, ao mesmo tempo, precisamos buscar materiais, tecnologias e cadeias produtivas que reduzam impactos e valorizem biodiversidade, conhecimento e comunidades
É uma busca permanente, por isso criei o conceito ASAP, As Sustainable As Possible, As Soon As Possible. Não como uma afirmação de perfeição, mas como um compromisso contínuo de evolução
Para mim, uma marca verdadeiramente contemporânea é aquela capaz de unir desejo e propósito, estética e ética, inovação e responsabilidade. O novo luxo está justamente nesse equilíbrio