Um dos nomes de destaque da nova geração da arquitetura brasileira, o arquiteto e urbanista falou sobre sua visão de criação e os bastidores de projetos marcantes da trajetória de Ruy Ohtake, que assina o projeto do Brasília Shopping
Alguns sobrenomes representam a origem de uma família. Outros carregam consigo um legado que atravessa gerações. Rodrigo Ohtake, arquiteto e urbanista, integra uma linhagem fundamental para a história recente da arte e da arquitetura brasileira, iniciada por sua avó, a artista plástica Tomie Ohtake (1913–2015), um dos grandes nomes da arte abstrata no país, e pelo pai, Ruy Ohtake (1938–2021), arquiteto reconhecido pelo uso expressivo de curvas, formas orgânicas, cores e soluções estruturais inovadoras.
À frente do escritório Ohtake, Rodrigo construiu uma trajetória que dialoga com essa herança sem se limitar a ela. Seu trabalho parte da arquitetura como campo de experimentação, com projetos que articulam linguagem, funcionalidade e relação com o entorno. Em sua produção, questões contemporâneas como sustentabilidade, inclusão e uso responsável dos espaços públicos ganham espaço ao lado da busca por novas possibilidades para a arquitetura brasileira.
Como parte das ações do calendário do Estilo Brasília, Rodrigo foi convidado pelo Brasília Shopping para uma noite dedicada a arquitetos e profissionais da cena criativa, em uma seleção curada pela Galpão — A Casa do Design Brasileiro. O encontro começou no Vasto Restaurante, seguiu com um city tour noturno pelo Itamaraty e terminou na Praça Central do Brasília Shopping, onde o arquiteto participou de um bate-papo com Cláudia Pereira, da Gabinete C.
A conversa passou pelos bastidores do projeto do Brasília Shopping, o 91º da trajetória de Ruy Ohtake, que reúne mais de 300 projetos; os códigos visuais que atravessam a produção dos Ohtake e também pelo olhar contemporâneo de Rodrigo para a arquitetura. Entre herança e reinvenção, o encontro trouxe à tona uma reflexão sobre o que permanece quando um projeto deixa o papel e ganha vida.
Rodrigo, na sua visão o que permanece quando a arquitetura deixa de ser só projeto e passa a fazer parte da memória da cidade?
Olha, eu acho que a arquitetura, quando é concebida, precisa ser pensada também para o futuro. O que fazemos hoje passa a integrar a cidade e pode permanecer no olhar e na lembrança das pessoas. Por isso, quando a gente faz arquitetura, está também construindo aquilo que poderá se tornar parte da história de um lugar
Que lembrança ou olhar de Ruy Ohtake ajuda a entender melhor o Brasília Shopping?
O que poucas pessoas sabem é que um projeto comercial como um shopping leva muitos anos para sair do campo da ideia e ganhar corpo. O Brasília Shopping, nosso projeto de número 91, foi lançado em 1997 e reúne diversos elementos da estética do Ruy. Ao mesmo tempo, havia o desejo de criar uma arquitetura aberta ao público, capaz de aproximar as pessoas da arte de maneira cotidiana. Afinal, a arquitetura também pode ser uma forma de expressão artística quando incorporada à cidade
O que significa construir uma linguagem própria dentro de uma família tão ligada à criação autoral?
Nossa visão é composta por diversas influências, principalmente de quem está próximo. Talvez por isso eu tenha sabido, desde muito cedo, que gostaria de ser arquiteto. Tive a oportunidade de conviver com a arte da Tomie e com a arquitetura do Ruy, referências fundamentais para a formação do meu próprio estilo. O meu trabalho parte dessas influências, mas busca responder às questões do nosso tempo, pensando em sustentabilidade, inclusão e nas novas formas de relação entre as pessoas e os espaços.
Um exemplo está na própria configuração das residências. Na década de 1980, as salas dos apartamentos eram pensadas como o coração do projeto, porque funcionavam como ponto de encontro da família. Hoje, os quartos são frequentemente apresentados como o grande atrativo e ganham dimensões cada vez maiores. A arquitetura também pode propor modelos que influenciam o comportamento. De maneira indireta, ela pode contribuir para romper o isolamento e estimular encontros, como nesse caso, ao criar espaços que favoreçam a convivência.